

Nara enviou-nos fotos de sua última viagem pelos EUA.
São fotos de gente. Fotos que registram o casamento de amigos na Pensilvânia e uma rápida passagem por NYCity. Fotos que demonstram que sua visão de fotógrafa está, aos poucos, migrando das questões puramente técnicas da luz, da cor, do objeto, das texturas para focar a luz dos brilhos dos olhos, a cor da emoção, para as texturas das relações inter-pessoais. Conhecendo Nara como conheço, acho natural que essas questões emerjam. Não que as questões técnicas não estejam presentes nestas fotos. Estão. É fácil perceber isso quando ela nos mostra as diferenças de temperatura de cor, eventualmente, como no caso das fotos da figura solitária que atravessa uma passarela em NY com sua sombrinha azul. Pode-se ver as diferentes temperatura de cor das diferentes luzes. O céu frio e nublado que reflete uma luz azulada e difusa que parece irradiar da sombrinha e que contrasta com uma luz quente e amarelada que vem de uma janela do prédio por trás, num contraponto que equilibra construtivamente o espaço, em uma das fotos da seqüência. Na outra, este papel é dado a um toldo verde. Numa terceira, ainda, a um reflexo no primeiro plano, provavelmente de uma luz laranja, proveniente da iluminação pública. No conjunto, estas fotos revelam uma poética que evoca, para mim, uma preocupação com o indivíduo em relação ao ambiente construído pela coletividade como espaço de transito e o contraste entre a cor e a não cor, a luz e a sombra, que as silhuetas recortadas contra o fundo revelam: ali vai um sonho.
Aqui, como ali, sobrevive a poesia.

